De repente eu já não sabia se estava dormindo ou acordada, meus sentidos se misturavam. A dor era tão imensa que eu nem conseguia abrir os meus olhos, eu só sentia cada fibra muscular do meu corpo se contrair. Algum tempo depois um alívio perturbador começou a me atingir pelas extremidades do corpo, primeiro a cabeça, depois mãos e pés e em seguida o meu tronco. Eu não sentia mais dor, eu não sentia mais nada. Mas meu pensamento estava confuso, eu não sabia onde estava, com quem estava e desde quando estava. Apenas sabia que estava. Ser, estar. Eu era, eu estava. Abri os olhos, com a intenção de descobrir o inferno onde eu me encontrava, mas ao invés de um lugar desconhecido, eu me encontrava em meu próprio quarto. Minhas estrelas fluorescentes estavam cintilando no meu teto azul, minhas paredes riscadas, meus livros empoleirados em prateleiras empoeiradas. Fui recuperando meu fôlego. Eu só poderia estar presa em um pesadelo. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Inspira. Expira. Respira. Respira. O amortecimento dos meus membros foi passando, eu já podia sentir o toque macio da colcha de chenile que eu usava para decorar a cama. Resolvi me levantar para recobrar minha memória. Na minha escrivaninha, no canto próximo à cabeceira da cama, um copo meio cheio de água, uma cartela de dorflex, meu celular e alguns papeis. Papeis escritos e amassados. Meus olhos ainda estavam embaçados para uma leitura tão minuciosa. Peguei o celular e fui checar as horas. 17:43. Por quanto tempo estive dormindo? Algumas notificações, algumas chamadas perdidas. Não queria ver nada disso agora. Saí do quarto, fui até o banheiro. Eu estava vestindo meias longas, calcinha e uma regata preta. Fiz xixi. Quando parei na frente do espelho me assustei com minha aparência. Olheiras profundas e ao mesmo tempo meus olhos inchados, cabelo com aparência de sujo, despenteado, um gosto amargo na boca. Eu estava com fome, mas ainda com dor, parecia que um elefante pulara sobre o meu peito. Lavei o rosto, enxaguei a boca, prendi o cabelo, voltei pro quarto. Fui ler os papeis amassados. A letra era minha, mas era impossível de entender, estava tudo muito borrado e tremido. Parecia uma carta desesperada. Peguei meu celular. Chamadas perdidas de quatro dias atrás. As ignorei. Mensagens. Uma mensagem em particular, já lida, me chamou atenção. Era simples e objetiva e assim que li, me senti despencar, e tudo fez sentido, e toda a dor tomou conta de cada parte do meu corpo.
“Hoje não vou te ver, nem hoje, nem nunca mais. Estou indo embora”.

23/09/13

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